Tradução do Conhecimento

12 de março de 2025

Entendendo a Taxonomia da Cannabis sativa

Atualizações Científicas e Implicações Clínicas

Introdução

A Cannabis sativa L. é uma planta fascinante que tem sido cultivada e utilizada por diversas culturas ao longo da história. Nas últimas décadas, avanços em genética, filogenia e taxonomia vêm redefinindo nossa compreensão sobre essa espécie e suas variações, com importantes implicações para o uso medicinal.

A História da Taxonomia da Cannabis

A Cannabis pertence à família Cannabaceae, que também inclui o gênero Humulus (lúpulo). Estudos recentes ampliaram essa família para incorporar outros oito gêneros anteriormente classificados na família Celtidaceae, com base em análises filogenéticas modernas e dados moleculares.¹

Uma Espécie, Muitas Variações

Atualmente, a visão mais aceita é que o gênero Cannabis compreende uma única espécie biologicamente diversa: Cannabis sativa L. Esse modelo, consolidado inicialmente por Small e Cronquist (1976), propõe duas subespécies principais:

  • Cannabis sativa subsp. sativa – associada ao cânhamo industrial, com baixo teor de THC (<0,3%).

  • Cannabis sativa subsp. indica – geralmente com maior concentração de THC, utilizada principalmente para fins psicoativos e medicinais.

Complementando essa classificação, estudos mais recentes reconheceram ainda variedades dentro da subespécie indica, como:

  • C. sativa subsp. indica var. afghanica – plantas compactas adaptadas a climas secos.

  • C. sativa subsp. indica var. himalayensis – plantas adaptadas a altitudes elevadas. ¹

O Mito de “Sativa” e “Indica” como Espécies Separadas

A distinção entre “sativa” e “indica” como espécies diferentes é amplamente popular, mas não encontra respaldo na taxonomia botânica moderna. Estudos genéticos e moleculares demonstram que essas categorias representam mais variações fenotípicas e ecogeográficas dentro da mesma espécie do que espécies distintas. ² ³

Inclusive, o que tradicionalmente se chama de “ruderalis” também é entendido hoje como uma adaptação ambiental da mesma espécie, não uma espécie separada. Todas essas variações fazem parte da diversidade intraespecífica da Cannabis sativa L.¹.

Quimiovares: Uma Nova Abordagem Funcional

Na prática clínica, o que realmente importa não é a aparência da planta ou o nome popular atribuído a ela, mas sim o seu perfil químico – a composição de canabinoides (como THC e CBD) e terpenos. Esses perfis são hoje chamados de quimiovares, e são muito mais úteis para prever efeitos terapêuticos do que as classificações populares. ¹ ³

Implicações Clínicas

Para profissionais da saúde, compreender a taxonomia moderna da Cannabis é importante, mas compreender o perfil químico completo da planta é essencial para garantir um uso medicinal seguro e eficaz. A análise laboratorial detalhada e a padronização dos quimiovares são estratégias fundamentais para personalizar tratamentos e melhorar resultados terapêuticos.

Conclusão

A Cannabis sativa é uma espécie única com vasta diversidade genética, funcional e fitoquímica. Atualizar a compreensão sobre sua taxonomia e suas implicações clínicas é essencial para que profissionais de saúde utilizem esse recurso terapêutico com maior segurança, precisão e embasamento científico.

Referências Bibliográficas

1 - McPartland JM. Cannabis Systematics at the Levels of Family, Genus, and Species. Cannabis Cannabinoid Res. 2018 Oct 1;3(1):203-212. doi: 10.1089/can.2018.0039. PMID: 30426073; PMCID: PMC6225593.

2 - Lapierre É, Monthony AS, Torkamaneh D. Genomics-based taxonomy to clarify Cannabis classification. Genome. 2023 Aug 1;66(8):202-211. doi: 10.1139/gen-2023-0005. Epub 2023 May 10. PMID: 37163765.

3 - Visković, J.; Zheljazkov, V.D.; Sikora, V.; Noller, J.; Latković, D.; Ocamb, C.M.; Koren, A. Industrial Hemp (Cannabis sativa L.) Agronomy and Utilization: A Review. Agronomy 2023, 13, 931. https://doi.org/10.3390/agronomy13030931

Palavras-chave: Cannabis sativa, Taxonomia da Cannabis, Subespécies de Cannabis, Uso Medicinal da Cannabis.